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Silêncio de Trump após vitória de Lula aumenta dúvidas sobre relação entre Brasil e EUA
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência do Brasil já provocou manifestações de líderes de diferentes partes do mundo. Uma ausência, porém, chamou atenção nas primeiras horas após o resultado: até o início da manhã desta segunda-feira (26), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda não havia reconhecido publicamente a vitória do brasileiro.
A demora ganha relevância porque ocorre em um momento de relações delicadas entre Brasília e Washington e também porque contrasta com a reação americana em eleições presidenciais brasileiras anteriores.
Com 100% das seções totalizadas, Lula terminou o segundo turno com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. O resultado foi oficialmente anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Outros líderes já reconheceram o resultado
Desde a confirmação da vitória, líderes estrangeiros de diferentes orientações políticas cumprimentaram Lula.
Entre eles estão governantes da América Latina, Europa e outras regiões, além da China, que manifestou interesse em aprofundar a parceria estratégica com o Brasil.
Alguns desses líderes pertencem à direita latino-americana, o que torna a ausência de uma manifestação da Casa Branca ainda mais observada no meio diplomático.
A Reuters também registrou nesta segunda-feira que o governo Trump permanecia em silêncio, enquanto representantes da União Europeia, França, México, Canadá, Índia e Rússia já haviam reconhecido o resultado.
O silêncio foge ao padrão de eleições anteriores
Segundo levantamento da BBC News Brasil, presidentes americanos reconheceram com relativa rapidez os vencedores das eleições brasileiras em 2002, 2014, 2018 e 2022.
Em 2022, Joe Biden cumprimentou Lula pouco depois da confirmação da vitória.
Em 2018, Trump telefonou para Jair Bolsonaro ainda na noite do segundo turno.
Barack Obama parabenizou Dilma Rousseff no dia seguinte à eleição de 2014, enquanto George W. Bush falou com Lula aproximadamente um dia depois da vitória de 2002.
Isso não significa, porém, que a ausência de manifestação nas primeiras horas represente formalmente uma ruptura diplomática.
Especialistas veem frustração política como uma hipótese
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a demora pode refletir uma frustração dentro do governo americano com a derrota de Flávio Bolsonaro, que desenvolveu relações próximas com Trump e com integrantes de sua administração.
Christopher Sabatini, pesquisador da Chatham House, considera o silêncio significativo e avalia que Trump pode estar processando politicamente a derrota de um aliado.
Anthony Pereira, da Universidade Tulane, também vê a vitória de Lula como diferente do cenário esperado por setores de Washington, mas acredita que interesses econômicos tendem a empurrar os dois governos para uma relação pragmática.
Essas avaliações são interpretações dos especialistas e não uma explicação oficialmente apresentada pela Casa Branca.
Flávio Bolsonaro também não reconheceu derrota
O silêncio americano ganha ainda mais relevância porque Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e anunciou intenção de buscar a anulação do segundo turno.
O candidato derrotado questiona a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que determinou a prorrogação da votação em seções que ainda permaneciam abertas.
A campanha de Flávio, porém, também havia solicitado extensão do horário de votação em determinadas regiões durante o domingo.
O TSE confirmou oficialmente a vitória de Lula com mais de 4,4 milhões de votos de vantagem.
Nesse contexto, analistas ouvidos pela BBC avaliam que uma eventual manifestação de Trump reconhecendo Lula poderia reduzir o espaço político internacional para uma contestação prolongada do resultado por Flávio.
Relação Brasil-EUA já vinha atravessando tensões
A eleição não é o único ponto de atrito entre Lula e Trump.
Desde 2025, a relação bilateral passou por conflitos comerciais e políticos.
Em julho de 2025, o governo Trump impôs tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos brasileiros, citando políticas e decisões do governo brasileiro como justificativa para uma emergência nacional americana relacionada ao Brasil.
Posteriormente, Washington retirou alguns produtos agrícolas da sobretaxa e reconheceu avanços iniciais em negociações iniciadas diretamente entre Lula e Trump em outubro de 2025.
Ou seja, mesmo após momentos de forte tensão, os dois governos mantiveram canais de negociação.
Comércio e minerais críticos estarão no centro da relação
Há interesses econômicos capazes de aproximar os dois países apesar das diferenças políticas.
Brasil e Estados Unidos negociam questões comerciais e Washington demonstra crescente interesse em minerais críticos e terras raras brasileiras, considerados estratégicos para cadeias industriais, defesa e tecnologia.
Antes da eleição, a Reuters apontava justamente comércio, tarifas e minerais estratégicos entre os principais temas que dependeriam do resultado presidencial brasileiro.
O Brasil, por sua vez, terá de administrar simultaneamente sua relação com Washington e sua ampla parceria econômica com a China.
Lula defende política externa independente
No discurso após a vitória, Lula voltou a defender uma política externa baseada na autonomia brasileira.
Ele afirmou que o país não deve tratar grandes potências de maneira diferente de seus vizinhos e declarou que o Brasil não aceita ser “quintal de ninguém”.
As declarações reforçam uma linha já adotada durante seu governo: buscar relações com Estados Unidos, China, Europa, América Latina e países do Sul Global sem alinhamento automático a uma única potência.
Segurança pública também separa os dois governos
Outro tema de divergência envolve a estratégia contra o crime organizado.
Durante a campanha brasileira, a aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump incluiu debates sobre uma cooperação de segurança mais alinhada às iniciativas americanas.
Lula, por outro lado, demonstrou resistência a propostas que possam ser interpretadas como interferência externa em questões de segurança interna.
Esse tema tende a permanecer na agenda bilateral durante o novo mandato.
Pragmatismo econômico pode limitar o conflito
Apesar das divergências, Brasil e Estados Unidos possuem relações econômicas, diplomáticas e empresariais de grande escala.
Empresas brasileiras mantêm operações relevantes nos Estados Unidos, enquanto companhias americanas possuem investimentos significativos no Brasil.
Também existem áreas históricas de cooperação em defesa, energia, saúde, comércio e meio ambiente.
É por isso que especialistas citados pela BBC avaliam que, independentemente das diferenças pessoais ou ideológicas entre Trump e Lula, existe forte incentivo para que Brasília e Washington mantenham uma relação funcional.