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Tragédia de Mariana completa 11 anos e atingidos seguem cobrando justiça e reparação
Rompimento da barragem de Fundão, em 2015, deixou 19 mortos e provocou danos ambientais, sociais e econômicos ao longo do Rio Doce. Comunidades realizam homenagens e continuam mobilizadas pela garantia de seus direitos.
MARIANA (MG) – Nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, o Brasil relembra os 11 anos de uma das maiores tragédias socioambientais de sua história: o rompimento da barragem de Fundão, localizada em Mariana, na Região Central de Minas Gerais.
O desastre aconteceu em 5 de novembro de 2015, quando a estrutura pertencente à mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, se rompeu e liberou aproximadamente 43,8 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração.
A avalanche de lama destruiu comunidades, provocou a morte de 19 pessoas, deixou centenas de moradores desabrigados e atingiu a bacia do Rio Doce, espalhando consequências ambientais e sociais por Minas Gerais e pelo Espírito Santo.
Mais de uma década depois, famílias atingidas continuam mobilizadas para cobrar reparação, reconhecimento de direitos e preservação da memória das vítimas.
Bento Rodrigues foi devastado pela lama
O distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, tornou-se um dos principais símbolos da tragédia.
Na tarde daquele 5 de novembro, a comunidade foi atingida pela onda de rejeitos liberada após o rompimento da barragem.
Casas, estabelecimentos, espaços comunitários e parte da história construída pelas famílias foram destruídos.
A lama também atingiu outras localidades, incluindo Paracatu de Baixo, e seguiu pelos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce.
Ao percorrer centenas de quilômetros, os rejeitos afetaram a qualidade da água, a atividade pesqueira, a agricultura e os meios de subsistência de comunidades ribeirinhas.
Os impactos ultrapassaram as fronteiras de Minas Gerais e chegaram ao litoral do Espírito Santo.
Onze anos depois, famílias continuam cobrando seus direitos
O aniversário do rompimento é marcado por homenagens às vítimas e manifestações organizadas por moradores e movimentos sociais.
Para esta quinta-feira (5), a Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão programou uma celebração religiosa e uma caminhada no território original de Bento Rodrigues, a partir das 10h.
O encontro busca preservar a memória das pessoas que perderam a vida e reforçar as cobranças por justiça e reparação.
Entre os principais pontos levantados pelas comunidades estão o reconhecimento dos atingidos, a conclusão das medidas reparatórias e a participação efetiva das famílias nas decisões que interferem em seu futuro.
Integrantes dos movimentos também alertam para o risco de que, com o passar dos anos, a tragédia deixe de receber a atenção necessária.
Acordo de R$ 170 bilhões tenta reorganizar reparação
Em outubro de 2024, foi firmado o Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro do mesmo ano.
O compromisso envolve as empresas Samarco, Vale e BHP, a União, os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo e instituições de Justiça.
O acordo prevê um total de R$ 170 bilhões em medidas de reparação e compensação.
Desse valor:
- R$ 100 bilhões serão repassados ao poder público para ações de reparação, recuperação ambiental, saúde, saneamento e infraestrutura, ao longo dos prazos estabelecidos;
- R$ 32 bilhões correspondem a indenizações individuais e outras obrigações assumidas pelas empresas;
- Aproximadamente R$ 38 bilhões correspondem a recursos já executados em iniciativas anteriores de reparação.
A existência do acordo, entretanto, não significa que todas as famílias tenham recebido as indenizações reivindicadas ou que os danos ambientais tenham sido integralmente solucionados.
Por isso, a execução dos compromissos permanece sob acompanhamento das instituições responsáveis e das comunidades atingidas.
Mobilização acontece em diferentes cidades
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) organizou uma programação entre os dias 4 e 6 de novembro para lembrar os 11 anos do rompimento.
As atividades incluem homenagens às vítimas, encontros com representantes do poder público e manifestações em defesa da reparação integral.
Além da programação em Bento Rodrigues, estão previstas mobilizações em Governador Valadares, Mariana e Belo Horizonte.
Na sexta-feira (6), o movimento realizará um encontro na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, seguido de uma caminhada na capital mineira.
A organização também pretende apresentar reivindicações relacionadas ao Novo Acordo do Rio Doce e cobrar compromissos para sua implementação.
Assembleia de Minas debate memória e direitos dos atingidos
Na quarta-feira (4), a Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma audiência pública sobre os impactos do desastre.
O encontro colocou em discussão a preservação da memória das vítimas, os problemas habitacionais nas comunidades atingidas e a necessidade de assegurar direitos às famílias.
Representantes dos atingidos reforçaram a importância de participar das decisões sobre reparação e reassentamento.
Uma das preocupações apresentadas é que o longo tempo decorrido desde a tragédia não resulte no esquecimento das pessoas que ainda enfrentam consequências do rompimento.
Recuperação ambiental continua sendo um desafio
A recuperação da bacia do Rio Doce envolve medidas de longo prazo.
Além da remoção e do controle de rejeitos em áreas específicas, estão entre os desafios a recuperação da vegetação, a qualidade da água, a recomposição de atividades econômicas e o acompanhamento da saúde das populações.
Em 2026, novas iniciativas de reparação seguem em desenvolvimento, incluindo projetos comunitários e assistência técnica a produtores rurais atingidos.
No início de novembro, a Emater-MG informou o início de uma etapa de diagnóstico em cerca de 500 propriedades rurais que aderiram a um projeto vinculado ao acordo de reparação.
Apesar dos avanços em determinadas ações, organizações de atingidos defendem que os resultados precisam ser avaliados a partir das condições reais de vida das comunidades.
Uma tragédia que não pode ser esquecida
O rompimento da barragem de Fundão mudou a história de milhares de pessoas que viviam nas comunidades atingidas e ao longo do Rio Doce.
Onze anos depois, o desastre continua presente na memória das famílias, nas transformações do território e nos debates sobre segurança de barragens, mineração e responsabilidade ambiental.
Mais do que recordar a data, as mobilizações de 2026 reforçam a cobrança pelo cumprimento das obrigações de reparação e pela preservação da memória das 19 vítimas.
Para os atingidos, a passagem do tempo não encerra a necessidade de justiça, reconhecimento e reconstrução das condições de vida.
Redação GLH Notícias
Fontes: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Ministério Público de Minas Gerais, Governo de Minas Gerais e Rádio Itatiaia.