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Palmada ainda é vista como forma de disciplina por parte das famílias, aponta estudo do Unicef

Tapas, palmadas e chineladas ainda são entendidos por parte das famílias como formas de disciplinar crianças, e não necessariamente como violência. A constatação aparece em um levantamento divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo buscou compreender o que leva pais, mães e cuidadores a recorrerem à violência física na educação dos filhos, com atenção especial à primeira infância, período que vai até os 6 anos de idade.

Ao todo, foram ouvidas 214 pessoas em comunidades do Rio de Janeiro, Recife e Manaus, incluindo responsáveis por crianças e lideranças comunitárias.

Um dos principais pontos identificados pelos pesquisadores é que muitas famílias fazem uma distinção entre uma palmada aplicada com intenção de disciplinar e situações consideradas por elas como espancamento.

Para o Unicef, essa percepção contribui para a naturalização da violência dentro do ambiente familiar.

Estudo mostra que palmada nem sempre é reconhecida como violência

Segundo a especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, algumas famílias sequer classificam tapas ou chineladas como formas de violência.

Na percepção registrada durante a pesquisa, existe uma tentativa de separar a agressão usada como suposto instrumento educativo de situações consideradas mais graves.

O problema, segundo o diagnóstico, é que essa compreensão mantém práticas violentas incorporadas à rotina de educação das crianças.

O levantamento também identificou relatos de adultos que reproduzem formas de criação semelhantes às que vivenciaram durante a própria infância.

Pesquisa ouviu moradores de três cidades

As entrevistas foram realizadas em territórios classificados como áreas de vulnerabilidade e violência.

Foram ouvidas:

123 pessoas no Rio de Janeiro, nas regiões da Grande Pavuna e Grande Jacarepaguá;

37 pessoas no Recife, no bairro do Ibura;

54 pessoas em Manaus, na Colônia Antônio Aleixo e na comunidade Parque das Tribos.

O estudo não representa estatisticamente todas as famílias brasileiras. Ele apresenta percepções e comportamentos identificados entre os grupos e comunidades pesquisados.

Apesar disso, o Unicef alerta que a violência contra crianças e adolescentes não está restrita a um único grupo social.

Lei existe, mas ainda é pouco conhecida

A chamada Lei Menino Bernardo, também popularmente conhecida como Lei da Palmada, completou 12 anos em 2026.

Segundo a especialista do Unicef, embora o Brasil tenha legislação e instrumentos para proteção de crianças e adolescentes, o levantamento mostra que as regras ainda são pouco conhecidas por algumas famílias.

A percepção social de que pequenas agressões poderiam fazer parte da educação também dificulta a mudança de comportamento.

Para os pesquisadores, além das medidas de denúncia e responsabilização, é necessário ampliar o trabalho de prevenção e orientação às famílias.

Pais relatam dificuldade para disciplinar sem violência

Outro problema identificado é a falta de alternativas conhecidas pelos responsáveis para estabelecer limites sem recorrer à agressão física.

O levantamento aponta situações em que a violência acontece durante momentos de forte emoção, como diante de birras e conflitos, sendo posteriormente acompanhada de arrependimento.

O Unicef também identificou dificuldades para que serviços públicos de apoio cheguem a algumas famílias e apontou necessidade de maior preparação dos profissionais que integram a rede de proteção.

A recomendação é que esses serviços atuem não apenas depois de uma agressão, mas também antes que ela aconteça.

Mais de 60 mil casos foram registrados em 2025

Dados citados pelo levantamento, provenientes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes foram registrados no Brasil em 2025.

Segundo os dados apresentados, o número representa aumento de 106% em comparação com 2024.

O crescimento dos registros reforça, na avaliação dos especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a importância de políticas voltadas à prevenção e à orientação das famílias.

Crianças ainda estão desenvolvendo controle emocional

A psicóloga infantil Mara Gomes, ouvida pela Agência Brasil, explica que crianças pequenas estão em uma etapa intensa de desenvolvimento emocional, cognitivo e neurológico.

Funções relacionadas ao controle de impulsos, planejamento e autorregulação ainda estão em formação.

Isso significa que uma criança pode sentir raiva, frustração ou tristeza de maneira intensa sem possuir maturidade suficiente para administrar sozinha essas emoções.

Segundo a especialista, a agressão física pode produzir comportamentos de submissão ou até estimular novas formas de agressividade.

Birra também pode ser uma forma de comunicação

A pedagoga Marília Paiva, que trabalha com neurociência aplicada à educação infantil, defende que adultos observem com mais atenção aquilo que normalmente classificam apenas como “birra”.

Segundo ela, alguns comportamentos representam uma tentativa da criança de expressar emoções que ainda não consegue organizar ou explicar.

A educadora aponta quatro etapas para lidar com situações de desregulação:

  1. o adulto precisa primeiro controlar as próprias emoções;
  2. acolher e reconhecer o sentimento da criança;
  3. estabelecer limites;
  4. ensinar e conversar quando a criança estiver novamente disponível para ouvir.

A ideia não é permitir qualquer comportamento, mas estabelecer limites sem recorrer à violência física.

Unicef defende prevenção e orientação

Entre as recomendações apresentadas pelo estudo está o fortalecimento de políticas preventivas.

O Unicef defende maior capacitação dos profissionais da rede de proteção e campanhas que apresentem aos responsáveis alternativas para estabelecer limites e educar sem violência.

A entidade também aponta que essas iniciativas precisam considerar as diferentes realidades sociais e econômicas das comunidades.

O diagnóstico indica que enfrentar a violência contra crianças exige não apenas mecanismos para receber denúncias, mas também apoio às famílias antes que situações de agressão aconteçam.

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