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Comissão de Anistia reconhece perseguição e indeniza Reinaldo
A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania aprovou, por unanimidade, nesta terça-feira (2/12), o pedido de anistia e indenização apresentado por José Reinaldo Lima, o ex-atacante do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira. O colegiado analisou 21 requerimentos na sessão, entre eles o do ex-jogador, que relatou ter sido alvo de perseguição durante o regime militar (1964-1985). Além do reconhecimento como anistiado político, Reinaldo receberá uma compensação financeira de R$ 100 mil, paga em parcela única.
Visivelmente emocionado, o ex-atleta acompanhou a sessão e relembrou episódios que viveu fora dos gramados. Em seu depoimento, afirmou ter sofrido uma campanha de difamação orquestrada por órgãos de repressão do período, o que teria limitado sua presença na Seleção Brasileira e prejudicado sua carreira.
“Sou conhecido pela minha história no futebol, mas poucos sabem das batalhas silenciosas que enfrentei”, disse. Entre lágrimas, destacou que a repressão não se restringia aos porões da ditadura: “A perseguição também acontecia por meio da destruição da imagem e da honra das pessoas”.
Segundo Reinaldo, estruturas oficiais espalhavam boatos e notícias falsas sobre figuras consideradas inconvenientes ao regime. Esses conteúdos, afirmou, chegavam à imprensa e eram publicados como forma de associá-lo à subversão. “Era uma guerra psicológica para isolar e destruir alguém sem precisar de prisão ou violência física”, declarou.
Celebrar gols com o punho cerrado irritava o regime
Um dos motivos que teria despertado a antipatia dos militares foi o gesto que o atacante fazia ao comemorar gols: o punho cerrado erguido, símbolo associado aos Panteras Negras, movimento que lutava contra o racismo nos Estados Unidos. O ato, interpretado como contestação política, incomodou autoridades e dirigentes do antigo sistema esportivo, dificultando seu espaço na Seleção.
Apesar da boa fase em que vivia, Reinaldo não foi convocado para a Copa do Mundo de 1982. Para ele, a ausência foi resultado das restrições impostas pelo regime. “Fui prejudicado por causa de um gesto e por defender a redemocratização. Transformaram isso em algo perigoso”, afirmou.
Documentos oficiais confirmam a vigilância intensa: o Serviço Nacional de Informações (SNI) produziu mais de 40 páginas sobre o jogador, monitorando seus movimentos, suas relações e até sua vida privada. Reinaldo relatou ter vivido com medo e em constante estado de alerta. “Eu estava solto, mas me sentia preso”, desabafou.
Carreira marcada por gols, lesões e desafios
Ídolo do Atlético Mineiro, Reinaldo estreou em 1973 e marcou 255 gols pelo clube, conquistando sete títulos estaduais e a Copa dos Campeões do Brasil, em 1978. É, até hoje, o atleta com a maior média de gols em uma única edição do Campeonato Brasileiro — 28 gols em 18 jogos, em 1977.
Sua trajetória, porém, foi prejudicada por lesões recorrentes. Ainda jovem, sofreu uma grave entrada que o obrigou a retirar os meniscos dos dois joelhos, iniciando um ciclo de infiltrações e cirurgias que encurtaram sua carreira.
Em 1985, transferiu-se para o Palmeiras, onde permaneceu por poucos meses, já enfrentando limitações físicas. Depois, passou pelo Cruzeiro e encerrou sua carreira aos 30 anos, no futebol holandês, atuando pelo Telstar.
Vida pessoal, superação e atuação política
Após deixar os gramados, Reinaldo enfrentou problemas com dependência química e chegou a ser condenado por tráfico de drogas em 1996, acusado de emprestar seu carro a um traficante. Ele afirmou que o fez pressionado por dívidas relacionadas ao vício. Posteriormente, foi absolvido em segunda instância.
Reconstruindo sua trajetória, ingressou na política e foi eleito deputado estadual pelo PT. Depois, em 2004, tornou-se vereador em Belo Horizonte. Em 2014, tentou uma vaga na Câmara Federal, mas não foi eleito.
Aos 68 anos, Reinaldo segue ativo como comentarista esportivo e, com o reconhecimento da Comissão de Anistia, afirma que parte de sua história finalmente foi reparada.