O mercado financeiro brasileiro vive uma segunda-feira de forte volatilidade no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O dólar disparou diante do real durante a manhã desta segunda-feira, 26 de outubro, chegando a aproximadamente R$ 5,60, enquanto o Ibovespa sofreu uma das maiores quedas dos últimos anos e acionou o mecanismo de circuit breaker da B3.
O movimento representa uma forte reversão em relação à sexta-feira, quando os ativos brasileiros haviam encerrado a semana precificando uma possibilidade maior de vitória de Flávio Bolsonaro.
Dólar chegou a subir mais de 12%
Por volta das 9h40, o dólar comercial avançava aproximadamente 12,25%, negociado a R$ 5,6048.
Na sexta-feira (23), antes do segundo turno, a moeda americana havia encerrado o pregão perto de R$ 4,99.
Ao longo desta segunda, porém, a alta perdeu força.
Por volta das 14h40, o dólar estava na região de R$ 5,43, ainda com valorização próxima de 9%.
Isso mostra a intensidade da volatilidade do pregão: a cotação continua muito acima do fechamento anterior, mas já não permanece no pico registrado pela manhã.
Bolsa chegou a cair mais de 17%
A reação também foi intensa no mercado de ações.
Logo após a abertura do pregão, a queda do Ibovespa superou o limite que provoca a interrupção automática das negociações na B3.
O chamado circuit breaker foi acionado, suspendendo temporariamente as operações.
Durante o dia, o índice chegou a recuar 17,34% na mínima.
Às 14h40, a queda havia sido reduzida para aproximadamente 14,62%, com o Ibovespa na região dos 175 mil pontos.
Na sexta-feira, o índice havia encerrado aos 205.083 pontos, com alta de 0,47%.
Por que o mercado caiu tanto?
A eleição é um elemento central para compreender o movimento desta segunda-feira, mas não deve ser tratada como explicação única para cada oscilação.
Nas semanas anteriores ao segundo turno, parte relevante dos investidores havia montado posições esperando uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Analistas ouvidos pela Reuters afirmaram que esse cenário estava associado à expectativa de uma política fiscal mais restritiva, redução de gastos e reformas consideradas favoráveis ao mercado.
A vitória de Lula contrariou essa precificação e provocou uma rápida reversão dessas posições.
Com isso, houve procura por dólares e venda de ações e títulos brasileiros.
Contas públicas entram no centro das atenções
Além do resultado eleitoral, os investidores observam principalmente quais serão as diretrizes econômicas para o novo mandato de Lula.
Entre as principais questões estão:
o ritmo de crescimento dos gastos públicos;
a trajetória da dívida;
as metas fiscais;
a capacidade de produzir superávits;
o futuro da taxa de juros;
e a escolha da equipe econômica para o próximo mandato.
A Reuters aponta que a percepção sobre a política fiscal será determinante para definir se a turbulência desta segunda-feira será apenas uma reprecificação inicial ou se terá efeitos mais prolongados sobre os ativos brasileiros.
EWZ desabou antes da abertura em Nova York
A forte reação começou antes mesmo da abertura do mercado brasileiro.
O EWZ, fundo negociado nos Estados Unidos que reúne algumas das principais ações brasileiras, chegou a recuar cerca de 26% no pré-mercado americano.
Por volta das 5h34, o ETF estava na faixa de US$ 31,30, com queda próxima de 26%.
O movimento serviu como uma primeira indicação de que o mercado brasileiro teria uma abertura bastante negativa.
Bancos e Petrobras sofreram fortes perdas no exterior
Também antes da abertura de Wall Street, ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos registraram quedas expressivas.
Papéis de bancos como Bradesco e Itaú chegaram a recuar mais de 20% no pré-mercado, enquanto ações da Petrobras também sofreram forte desvalorização.
Essas cotações variaram posteriormente com a abertura regular das bolsas americanas.
Exportadoras conseguem escapar de parte da queda
Nem todas as empresas acompanharam a mesma direção.
Empresas exportadoras, que recebem parte relevante de suas receitas em dólares, chegaram a subir durante o pregão.
Suzano, Embraer, WEG e Vale estiveram entre os papéis que mostraram desempenho melhor em alguns momentos desta segunda-feira.
A alta do dólar tende a favorecer, em determinados cenários, companhias que possuem receitas relevantes na moeda americana.
Juros futuros também dispararam
O impacto não ficou restrito ao dólar e à Bolsa.
Os contratos de juros futuros subiram fortemente, refletindo maior percepção de risco e expectativas sobre inflação, dívida pública e política fiscal.
Quando os juros futuros sobem, o mercado passa a precificar custo maior para o dinheiro ao longo dos próximos anos.
Isso pode influenciar desde o financiamento do governo até crédito, investimentos e avaliação das empresas.
Tesouro cancelou leilões
Diante da forte volatilidade, o Tesouro Nacional cancelou leilões programados de títulos públicos prefixados e ligados à inflação.
A medida ocorreu em um dia de deterioração também nos preços dos títulos públicos brasileiros.
Movimento ainda pode mudar até o fechamento
Os números desta segunda-feira estão mudando rapidamente.
O dólar que chegou a R$ 5,60 pela manhã já estava mais próximo de R$ 5,43 durante a tarde.
Da mesma forma, a Bolsa oscilou entre perdas superiores a 17% e quedas menores em outros momentos.
Por isso, valores apresentados durante o pregão representam apenas um retrato daquele instante.
O resultado definitivo do dia só poderá ser conhecido após o fechamento dos mercados.